Filosofia para o medo da morte
“Isso nada mais é do que [a alma] tendo corretamente perseguido a filosofia e de fato ensaiado morrer com facilidade — ou não seria isto uma preparação para a morte?” — Platão, Fédon 81a
τοῦτο δὲ ούδὲν ἄλλο έστὶν ἢ ὀρθῶς φιλοσοφοῦσα και τῷ ὄντι τεθνάναι μελετῶσα ῥᾳδίως· ἢ οὐ τοῦτ᾽ ἂν εἴη μελέτη θανάτου;
“Isso nada mais é do que [a alma] tendo corretamente perseguido a filosofia e de fato ensaiado morrer com facilidade — ou não seria isto uma preparação para a morte?”
— Platão, Fédon 81a
Há uma frase no Fédon que, lida fora de contexto, soa adolescente ou mórbida: Platão escreve, pela boca de Sócrates, que filosofar é, literalmente, treinar para morrer. Em grego, μελέτη θανάτου (melétē thanátou) — a prática, a preparação, da morte.
A cena
A frase aparece numa situação específica, e a situação importa. O Fédon descreve as horas finais de Sócrates na cela, antes de beber a cicuta (a cena se arma em 59c–63e). Os amigos estão ao redor. Sócrates, por sua vez, está calmo. Conversa sobre a alma, sobre o que vem depois, sobre o que significa ter vivido uma vida filosófica. A tal altura, alguém pergunta o que todo mundo queria perguntar: como ele consegue estar assim?
A resposta é, de certa forma, a tese do diálogo: um filósofo de verdade passa a vida inteira preparando-se para este momento. Morrer, para quem pratica a filosofia, é a continuação — “não praticam nada senão o morrer e o estar morto” (Fédon 64a).
A palavra μελέτη é significativa: é uma palavra grega que indica preparação, a repetição que vira habilidade. Sócrates não está dizendo “pense em morrer”. Ele está dizendo: "eu treino, já há décadas, para algo que só vai acontecer uma vez."
A pergunta que isso deixa para o leitor é óbvia: treinar como?
O que, exatamente, é se preparar
Platão explica, pela boca de Sócrates, que morrer é a separação da alma e do corpo (Fédon 64c). Mas o que ela descreve é uma experiência concreta que, de forma simplista, se explica assim: existe em nós uma parte (chamada “alma”) que pode compreender as coisas como elas são, conhecer a verdade, a beleza, o justo etc — e existe uma parte (chamada “corpo”) que tem fome, medo, que sente dor ou deseja riquezas.
Essa dualidade reproduz a diferença entre alma e corpo e, para Sócrates, a alma é a que, por natureza, está mais afinada com as coisas mais nobres. Essas coisas nobres são eternas, isto é, são elas verdadeiramente as coisas que importam e que não são perecíveis (o Bom, o Justo etc). Ao contrário, a riqueza, propriedade e os desejos internos se direcionam a objetos efêmeros.
O direcionamento constante e quase exclusivo dos esforços para esses objetos efêmeros (essencialmente, o que a maioria das pessoas à nossa volta faz) é um obstáculo ao conhecimento das coisas verdadeiras, ao engrandecimento da alma. Esses bens, assim como o corpo, não conduzem ao conhecimento da verdade, mas obscurecem nossa razão na busca pela verdade
Então a filosofia é, para Platão, viver pendendo, um pouco mais a cada dia, aos “assuntos” da alma. Isso, talvez, explique por que Sócrates, ao se deparar com seus interlocutores, se esforça tanto em ir ao fundo das questões, de ir nas primeiras apreensões do indivíduo e de investigar se as crenças que se toma como certas são, de fato, verdadeiras.
Se a vida toda foi vivida assim, a morte — que é a desarticulação final de tudo que é corpóreo — não pega o filósofo de surpresa. Ele já vinha fazendo, em pequenas doses, o que a morte faz de uma vez só. Já vinha se desapegando do que era apetite, do que era aplauso, do que era ruído. A cicuta é só um evento dentro de uma prática que já estava em curso.
Aí está a primeira tradução possível para o leitor moderno: treinar para morrer é, todos os dias, buscar se ocupar mais com os assuntos da alma, do que do corpo.
O essencial e o resto
A segunda implicação é a que mais me interessa, e é onde Platão conversa, sem saber, com qualquer um que já se viu irritado num trânsito banal.
Se morrer é perder tudo o que não é essencial, treinar para morrer é aprender, hoje, a distinguir o que é essencial do que não é. Parece trivial, porque a ideia está formulada em todos os livros de sabedoria popular. Alias, Platão oferece justamente aquilo que falta aos manuais de autoajuda baratos: uma justificação suficiente para essa conclusão.
O exercício platônico é, na prática, uma pergunta diária que você faz contra o que te aborrece: se eu morresse amanhã, isso aqui que me tira do sério teria algum peso?
Estressando ainda mais esse pensamento, alguns (os gnósticos, vamos dar nome aos bois) diriam que SÓ o que importa vem da alma e o corpo apenas produz coisas para nos distrair e emburrecer. Não sei, acho que essa avaliação pode ser boa para poucos vocacionados à uma vida ascética e mística, mas nem mesmo esse estilo de vida é capaz de focar apenas naquilo que é assunto da alma.
Gosto de acreditar que essa conclusão metafísica socrática é uma forma de justificar que podemos buscar a verdade e que há uma técnica, de nome “filosofia", que escava essa verdade até seus fundamentos primeiros, para conhecer o que era universal, necessário, essencial, verdadeiro lá em Atenas e em todos os cantos.
O paradoxo da coragem (sim, vou usar Platão para dar discurso de coach)
A terceira implicação é intuitiva.
Se você passa a vida treinando para se preocupar com o que é essencial, as coisas terrenas perdem aquele grau de importância.
O medo de perder o emprego faz você tolerar um chefe abusivo. O medo de perder o relacionamento faz você engolir desrespeito. O medo de ficar mal na foto faz você não falar o que pensa. O medo de perder o status faz você aceitar convites que não quer, trabalhos que não respeita, amizades que te secam. Todo medo de viver, quando se chega ao fundo, é medo de perder alguma coisa.
Isso não é se tornar temerário e viver independentemente das consequências (Aristóteles explica que a virtude é o meio termo, e não o excesso). Não acho inteligente largar um emprego para se dedicar exclusivamente aos assuntos da alma.
Mas não colocar uma expectativa de vida e de conhecer a verdade plena nesses assuntos que dizem respeito à nossa experiência material/corporal.
O filósofo no sentido de Platão já perdeu tudo em ensaio e seria um farsante se temesse a morte, porque temeria justamente aquilo para o qual vinha treinando a vida toda.
Isto me parece ser o núcleo prático da μελέτη θανάτου, e o que a separa do memento mori estampado na foto de um marombeiro de Instagram.
Fim
Uma leitura possível deste texto é que ele é sobre a morte. Outra leitura é que ele é sobre a vida. A interpretação final fica a cargo de quem lê, mas, se eu puder maquiavelicamente induzir seu pensamento, diria que é um texto para o que se faz em vida diante da certeza da morte.
O próprio Platão, aliás, fecha o Fédon assim: o mito final (107c–114c) não acrescenta doutrina nova, apenas devolve a ideia em forma narrativa. O que a alma faz depois, na travessia, depende do que ela treinou fazer antes. Vinte e quatro séculos depois, a "ginástica" continua a mesma: se preparar para a morte.
Se você morresse amanhã, qual seria a primeira coisa que você ia perceber que gastou a vida perdendo tempo com? Pode responder aqui no email.
(Este ensaio virou roteiro do seguinte vídeo:
Citações do Fédon conforme a edição Loeb (Plato I, LCL 36, trad. Harold North Fowler), com paginação Stephanus indicada no corpo do texto. A tradução no início do texto, do grego antigo, é uma tentativa minha.
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